Antiga coragem de poeta
Ao fim dos sonetos
Um natural golpe fatídico
Nas aparições da vida terrena
Assassinos de personagens
Sentados em cómodos tronos
Sedutoras marionetas de imagens
Enxugam as lágrimas
De não sofrer de amor
É verdade que entre a vida e a morte existe um espaço quase virgem. Nesse pedaço de nada, apenas cabe uma folha de papel de arroz...se não estiver escrita.
Antiga coragem de poeta
Ao fim dos sonetos
Um natural golpe fatídico
Nas aparições da vida terrena
Assassinos de personagens
Sentados em cómodos tronos
Sedutoras marionetas de imagens
Enxugam as lágrimas
De não sofrer de amor
Não era simples se a morte
Afinal fosse mais que o fim
De um rasgo princípio
Que julga mesmo assim
O tempo que deixou viver
Pendem agora as protuberâncias
Será que amanhã voarão?
Livre do peso das lembranças
De quando foram crianças
Enfermos no casulo
Hoje de seda
Amanhã madeira
Irrompem asas esforçadas
As patas cravam no defunto
Esquecido algures no fundo
Brotam as lágrimas do farol
Que à frente fizeram mar
Ainda antes de poder voar
Apetecível borboleta
Que nasceste na morgue
Esquecida da vida
-Aprende a voar
Amanhã pousarás
Na efémera cruz de pau
Que hoje te marcou a morte
Querer apor um título
No chapéu de coco de um poema
Ou nas palmilhas de um romance
Não será mais que um dilema
De amanhã viver o resto
Depende do título
Quem não chora ao primeiro olhar?
Vive cego no titubear do ímpeto
de ser velho antes de amar
Talvez o mais nobre título do mar
Tentem ter estrelas antes da noite
Ou a morte antes de chorar
Falta um título
Falta logo a pequena parte
Uma meia dúzia de letras
na diferença de ser arte.
O “Título” é muito mais do que aquele órfão de quem habitualmente temos pena. Um sem abrigo que não sabemos soletrar, nem tão pouco arranjamos espaço para que ele pernoite.
Não. O “Título” é tudo na mais ínfima das partes. O que seria da obra prima “O Grande Gatsby” se não tivessem convencido o srº Scott Fitzgerald a renegar ao nome “ Trimalchio in West Egg”. Ou se porventura não renomeassem a obra “Pansy”, para “E tudo o vento levou”. O que seria de Pansy?
Quando li o livro de crónicas “Da cidade nervosa” do escritor Enrique Vila-Matas, uma das crónicas retrata a importância do Título, e essa importância é bem retratada numa conversa entre o próprio e outro cronista.
-Sabes porque são tão cabrões os títulos?
-Porque se sabem imprescindíveis!


