06/08/06

Matar sem morrer

Antiga coragem de poeta
Ao fim dos sonetos
Um natural golpe fatídico
Nas aparições da vida terrena

Serão hoje esses poetas?
Assassinos de personagens
Sentados em cómodos tronos
Sedutoras marionetas de imagens
Enxugam as lágrimas
De não sofrer de amor

23/07/06

Despertar da morte

Não era simples se a morte
Afinal fosse mais que o fim
De um rasgo princípio
Que julga mesmo assim
O tempo que deixou viver

Mas dos pêlos da lagarta
Pendem agora as protuberâncias
Será que amanhã voarão?
Livre do peso das lembranças
De quando foram crianças

Enfermos no casulo
Hoje de seda
Amanhã madeira
Irrompem asas esforçadas
As patas cravam no defunto
Esquecido algures no fundo

Na terra a incólume inocência
Brotam as lágrimas do farol
Que à frente fizeram mar
Ainda antes de poder voar

Ingénua principiante
Apetecível borboleta
Que nasceste na morgue
Esquecida da vida
-Aprende a voar
Amanhã pousarás
Na efémera cruz de pau
Que hoje te marcou a morte

03/07/06

Antes de morrer, todos suspiram

Querer apor um título
No chapéu de coco de um poema
Ou nas palmilhas de um romance
Não será mais que um dilema
De amanhã viver o resto

O resto do que pode ser nada
Depende do título
Quem não chora ao primeiro olhar?
Vive cego no titubear do ímpeto
de ser velho antes de amar

Os rios também correm pró rio
Talvez o mais nobre título do mar
Tentem ter estrelas antes da noite
Ou a morte antes de chorar

E agora?
Falta um título
Falta logo a pequena parte
Uma meia dúzia de letras
na diferença de ser arte.


O “Título” é muito mais do que aquele órfão de quem habitualmente temos pena. Um sem abrigo que não sabemos soletrar, nem tão pouco arranjamos espaço para que ele pernoite.

Não. O “Título” é tudo na mais ínfima das partes. O que seria da obra prima “O Grande Gatsby” se não tivessem convencido o srº Scott Fitzgerald a renegar ao nome “ Trimalchio in West Egg”. Ou se porventura não renomeassem a obra “Pansy”, para “E tudo o vento levou”. O que seria de Pansy?

Quando li o livro de crónicas “Da cidade nervosa” do escritor Enrique Vila-Matas, uma das crónicas retrata a importância do Título, e essa importância é bem retratada numa conversa entre o próprio e outro cronista.

-Sabes porque são tão cabrões os títulos?

-Porque se sabem imprescindíveis!


É o desafio do “Título” que vos proponho. Os próximos textos não terão título na sua versão original. Esse grande passo será dado pelos leitores deste blog. Sugiram o título para cada texto no espaço para os comentários. Eu serei o júri e o título vencedor será posto bem no princípio da vida de cada texto, com os devidos agradecimentos ao seu mentor.

19/06/06

O manifesto do Joaquim

Estás feio
magro
doente
e sujo
Do pó dos teus livros
Da cinza dos fiéis cigarros
Da fuligem dos que te enganam
-Desculpa!
Dos que te amam…

Dos abraços de outrora
Fazes foice nas tuas pernas
E dos olhares de soslaio…
A leve pena que te assusta
Agora martelo que te custa
De seres memória no fumo que expiras

É melhor fecharmos o livro
Sem marcador nem vinco na página
Talvez o leias mais tarde
Quando o corpo, a alma e o medo
Deixarem de sofrer contigo

Acho que quero morrer
Mas não completamente só
Sozinho serei fascista do tempo
E dói!
Dói tanto como doeu ontem
quando me estatelei no chão
e na terra onde nasci
nada me acolheu senão a dor

A minha admirável dor…
de estar só
de ser apenas eu
e esta maldita morte
que não me larga o pensamento

que um dia quis ser livre.

29/05/06

Última madrugada

Não sei se consigo
Morrer logo depois da morte
E se ela não morrer
Então matar-me-ei!
Antes do primeiro anoitecer

Não sei se consigo
Esperar a morte de quem mata
Esperar o amor de quem nasce
Mesmo que esperar fosse contigo

Na cara os primeiros socalcos
Árida a terra que os acolhe
São sulcos que fazem vida
No fim a morte que os recolhe

Continuo sem saber se consigo
Acolher nos braços a mágoa
Da sombra ingénua da pia
Nos primeiros pingos da água

Não, não, não consigo
Esperar a inquietude do alto
Das lágrimas que não me lembro
Um bocejo nas veias do planalto

-Consegui!
Apertado pelas paredes da vala
Orgulho próprio de um arlequim
A primeira gargalhada do fim

Do dia
Da noite

…da vida

18/05/06

Ainda novo, matei-me!

Acontece sempre de manhã…
Ainda nem o orvalho acordou
A avó já perfuma os sentidos
Trinados pelos acordes garridos

…de um galo perneta

Uma estria de trigo
Ao canto musculado da boca
A bússola desnorteada de um campo
De cotovelos surrados no tampo

…da velha mesa também ela perneta


Por detrás da linha quase recta
Afastam-se os Homens do medo
Da linha começar a curvar
Esconder-se numa carta sem lugar

…ou no dorso de um cão vadio
A quem lhe tinham partido uma perna


Do outro lado da inocência
Eis que se vislumbra o campanário
Aguardam no confessionário
Os segredos imaginários

…de um padre que também era coxo


Um último olhar agendado
Antes do carinhoso copo de leite
Calma a noite se vai deitando
Uma brisa de vez em quando

…balanceia uma flor sem caule


Para onde vai a sombra?
Do empedrado que se vê do terraço
Manchas campónias da terra
Acolhem o pó da única guerra

…onde não se entoam os canhões.

04/03/06

O coelho que queria casar com a lagarta

Era maior
simplesmente maior e melhor
do que qualquer outro transeunte
até mesmo do que a fama
de ser maior e melhor
num passado que ainda sonha


A simplicidade eterniza os insectos
talvez os mais pequenos
esqueçam a ignorância
de ser quase nada


Na pureza das nuvens
não se ouvem indecorosas palavras
terá que andar curvo este coelho?
para ouvir o nervoso bater das asas
dos demais vermes que rastejam
aos pés da vergonha de ser pequeno


Curvo, velho ou apenas com medo
de afinal ser lagarta
numa fruta já podre
de há tanto tempo estar no chão


A vaidade adormece lentamente
o corpo já não saltita nos campos
agora rasteja nas pétalas
da frustração de ser lagarta


…vagarosamente o dia acorda a metamorfose
de uma saudosa borboleta
a quem lhe cresceram orelhas de coelho
só me restam efémeras dúvidas
se serás suficientemente grande para isso…

05/12/05

A fome dos marginais

Avisam os pobres
a indiferença das elites
sobre o último saco de pão
a alguém que sempre foi não


Aproveitem os domingos solarengos
alimentem os pobres…
dos animais, e também os demais
às migalhas dos restos dos anormais


Uma gaita-de-beiços
desafinada como a esperança
de mais uma moeda que cai
da vergonha que sempre sai

…no próximo apeadeiro


Vivem do corpo que se quer magro
da mente que se quer vazia
é mais fácil suportar o frio
da manhã que não será dia


Confuso
baralhei ricos e pobres
afinal quem é quem?
a solidão de não ser ninguém


Alimentem hoje os pobres
e das migalhas
façam-nos ricos…

12/09/05

Violação que soube tão bem

Agora que esta persistente mania de arremessar palavras para um blog, atingiu a esplendorosa, magnânime e “inatingível” marca das 1000 (mil, 10X100) visitas, procuro calorosamente a única pessoa que visitou este espaço para além de mim.
Andei eu a entrar e a sair vezes sem conta do blog, para que o contador me fosse pausadamente dando a ideia de que esta fixação por ser um mono-poeta era recompensada, quando não é o meu espanto, a visita mil é conseguida por outra pessoa que não eu.
Não é fácil, despender tanto tempo num objectivo de uma vida e vir alguém que se engana no endereço e roubar-nos a única esperança que não aprendeu a voar.

À única pessoa que visitou o meu blog…


-afinal o que é que lhe aconteceu?

…enganou-se no endereço, foi?
…ou deu um ENTER a mais?

Que raio de insanidade foi essa?!

Agora mais nada será igual
Será tudo muito pior...

Obrigado a todas visitas

Connection

09/09/05

Uma nau que não navega

Respiram fundo…
Os quatro vadios
que acompanham a noite
enquanto esta se prepara para dormir

É melhor falar baixinho
agora que as traineiras semicerram os olhos
aninham-se nas redes
enquanto o mar as embala com uma história

Respirem fundo…
agora para sentir o cheiro
cheira a revolução
por toda a cidade,
e nalguns becos
talvez mesmo a solidão

Quatro vadios
centenas de corvos
e uma nau…
-ao longe apenas uma fotografia

No fim o derradeiro adeus
a uma cidade que todos se despedem
como se fosse pela última vez.




Despedimo-nos de Peniche, como se por um acaso, nunca mais pudéssemos lá voltar!!!

Obrigado R&R!

16/08/05

O que é que eu faço a isto?

Depois de olhar de soslaio para um vidro espelhado com o intuito de avaliar a minha aparência naquele instante, vi que tinha herdado inexplicavelmente uma mala de senhora. Sim, sim... uma pura mala de senhora mesmo no momento em que avaliava o meu aspecto numa rua incrivelmente movimentada.
E agora? o que é que eu faço a isto?
  • A tiracolo nem pensar!
  • Com a mão a pegar nas asas deixando a mala deambular ao sabor do andar, muito menos...
  • Colocá-la por baixo da T-shirt neste dia tão quente...nãaa
  • Colocar as asas pela cabeça, segurando a mala pelo pescoço.Era uma hipótese, porque daria certamente a ideia de que aquele objecto não me pertenceria de forma alguma, mas do ponto de vista da demência não é a melhor solução.
  • Afinal o que eu faço a isto?
Nesse dia não fiz nada...Esperei com a mala de senhora junto a mim, tal como o dono de um cão espera que ele descarregue na árvore mais próxima.
Ainda hoje espero que esta mala de senhora se despache a mijar e vá para junto da dona.

05/08/05

Sua filha da p...

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O Croupier
será sempre Deus
e as casas
os seus trinta e seis destinos
par
as mulheres
impar
o dinheiro dos homens
e mesmo que seja ao contrário
as fichas transpiram ambição
apostam os soviéticos
o estilo dos americanos
apostam no vermelho
que reflecte no sangue
os outros no preto
- digam olá a sua majestade a morte!
a Exma srª roleta
uma íntima prostituta
e aquela irrequieta bolinha
a sua filha...

13/07/05

Nos escombros do silêncio

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Os inóspitos sons de uma cidade
como que distraem a inocência
numa leve brisa de consciência
que existe uma vil leviandade

Despojos de corpos pingam a incerteza
calcorreiam um caminho à deriva
de um socorro já sem saliva
numa boca que engoliu tristeza

No cimo de todas as horas
movem-se os ponteiros da vingança
um silêncio que parece que dança
nas lágrimas que já não choras

Ontem o medo…
de hoje não ser igual
amanhã será tal e qual
o que nunca foi segredo

Na sombra dos olhos o desgosto
de não ter sido turbante
naqueles profetas sem rosto



O silêncio nunca revela o estado em que vai a alma.
Os nossos inimigos ficarão sempre na dúvida sobre o sucesso dos seus ataques.
Em Londres apenas se ouvem as badaladas do Big Ben. O resto é apenas o silêncio de quem não sucumbiu.

27/06/05

Maldita felicidade

Maldita felicidade
que me deixa tão triste
é que sem tristeza não escrevo
e sem escrever não sou feliz

Sonhos Eternos

Adormeço de barriga para cima
como que a enfrentar o infinito
sinto-me tonto com a importância
de ser o único a dormir assim

Agora adormeço
de barriga para baixo
e desprezo a eternidade;
comigo
saboreio os sentimentos de solidão
eles rodopiam num sono
que nunca é profundo

De lado
já não consigo adormecer

Quando a noite se deita
vivo momentos inesquecíveis
tal como de dia
...nunca me decido...

22/06/05

Uma estrela que dança - parte II

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2.45 de uma nostálgica madrugada de Lisboa. Homens refugiados numa mescla de sonhos e frustrações sentavam-se ordenadamente na sala VIP do clube nocturno “ Los Gatos Negros”. O silêncio demonstrava a cumplicidade masculina de quem sente um prazer enorme em estar ali, mas dificilmente conseguiria explicar credivelmente o atraso para jantar. Faltavam poucos minutos para as três da manhã, quando as luzes deixaram de incomodar os olhos de quem apesar de tudo tinha vergonha, mesmo sabendo que a consciência valia o preço da entrada – 200 euros.
Os persas topavam-se à distância; cruzavam as pernas incessantemente e bebericavam o whisky com espaços de segundos enquanto olhavam de soslaio para os outros companheiros, procurando sensações e fragilidades que os acalmassem. No clube “Los Gatos Negros” os persas eram todos os principiantes, que apesar de tudo actuavam com o nervosismo próprio de quem quer demonstrar que é experiente.
Escuridão absoluta. Apenas uma risca prateada atravessava o palco desde o chão até ao céu, chamando para si o charme e o mistério de um objecto puramente feminino – o varão.
Eis que um vulto no horizonte fez levantar o primeiro burburinho na sala, seguido de um esfregar de mãos frenético; agora todos os homens eram iguais, sem rosto e escondidos por detrás de uma esperança de conquista. Todos eles estavam ali, não só para ver e apreciar, mas no íntimo todos tinham uma esperança de amor à primeira vista, que os fizesse lá voltar.
Acenderam-se as primeiras luzes e lá estava ela, percorrendo todo o palco como se um desfile se tratasse, um caminhar experiente de quem nasceu para vender emoções.
Aaaaaaah – exultaram os presentes numa coreografia não planeada.
Era o primeiro aplauso verbal para LurdeZ, uma mexicana de contornos idílicos, pele morena, cabelos negros e uns olhos onde o reflexo do verde hipnotizava quando se fixavam na alma de um qualquer peregrino. LurdeZ era a única mulher nos “ Gatos Negros” que não vestia nenhuma personalidade, nem usava qualquer música – ela era simplesmente a sua própria imagem. Um dia alguém vestirá a pele de LurdeZ como um ícone que calcorreou a paixão e os sonhos dos outros.
No fim – e porque tudo tem um fim – as expressões da derrota de mais um amor perdido. Nunca ninguém conquistou esta mulher, muito menos em apenas quinze minutos.
No amor, LurdeZ jamais perdera uma emoção, jamais deixara escapar uma réstia sequer de amor-próprio.
Depois do show, como sempre, deu um respeitoso beijo no Birmanês e deixou-os com a frigidez de quem acaba de roubar um cego.
Perto do metro quando ainda decifrava o caminho da glória tropeçou numas pernas estendidas, assassinadas pelo próprio corpo a que pertenciam. Depois de pisadas, as pernas esboçaram uma expressão de dor, ao mesmo tempo que o resto do corpo angariava sorrisos, nesta noite já quase manhã.
- Desculpe señor – disse LurdeZ num português mais do que infantil.
- No pasa nada – retorquiram as pernas ainda mortas.
- Espanhol señor?
- Não, apenas um português que não consegue ir para casa, porque o metro tem aquelas luzes fundidas – sim aquelas em que se pode parir uma estrela que dança.
Álvaro acabara de parir uma estrela que dança, mesmo sem um aparente caos interior.
A sua frase mais religiosa era agora a sua maior mentira.

14/06/05

Uma estrela que dança - parte I

- Traz-me o código Da Vinci – disse a mãe de Álvaro, arfando a urgência da posse.
À porta de casa, Álvaro tinha o metro, transporte público que ele sempre usava qualquer que fosse o seu destino. E fazia-o sempre da mesma forma. Dirigia-se para a estação de metro do parque, aí saía e só depois escolhia a melhor forma para chegar ao local pretendido, mesmo que isso significasse voltar para trás. Adorava a estação de metro do parque. Lá sentia-se como se fosse as maravilhas do país da Alice. E sentia-se assim até começar a subir as escadas rolantes, onde inspirava profundamente e não respirava até chegar lá acima. A três quartos da subida, já quase sem fôlego e com a vista turva, lia sempre a mesma frase em luzes quase néon – “é preciso um grande caos interior para poder parir uma estrela que dança”. Nesse preciso momento sentia-se Deus, porque achava que nada lhe faltava para parir uma estrela. O facto de dançar não era assim tão relevante.
Para Álvaro a feira do livro de Lisboa, sempre foi um evento que justificou plenamente aquela atracção desmedida pela estação de metro do parque. Embora ele tivesse o hábito da leitura, aquela viagem não era mais do que uma desculpa para se sentir uma pessoa com destinos traçados, pelo menos durante os dias de duração da feira.
Nesse dia algumas luzes estavam fundidas e aquando da escalada-vertiginosa-rolante-sem-fôlego apenas se via “poder parir uma estrela que dança”. A expiração repentina revelou o desespero de um homem que descobre que afinal não é Deus. Porque afinal de contas, parir uma estrela que dança é uma coisa normal para qualquer dos mortais.
Na primeira editora comprou o código Da Vinci para que a mãe o pudesse mostrar às suas amigas. Claro que ela não o ia ler. Tinha um saco suficientemente transparente, onde punha o livro e passeava este binómio saco-livro pelo bairro. Muito culta a mãe do Álvaro!
Mas era uma profissional. Todos os dias avançava o marcador do livro umas setenta páginas, e decorava umas frases ao acaso e declamava-as na hora do café. Um trabalho bem feito deve sempre ser elogiado!!!
Álvaro queria regressar a casa, mas jamais o faria pela estação do parque, enquanto não arranjassem aquelas malditas luzes fundidas, que o tornavam no mais banal dos Homens. Como se regressa a casa de outra forma, quando toda a vida o fizemos pelo mesmo caminho?

09/06/05

Poetas que voam meia vida

Poetas que voam
fazem-no a meia altura
acima do horizonte
é que por baixo
ventos de amodorradas vergonhas
dilaceram-lhe as asas

amam como voam
apenas com meia paixão
a outra metade
imunem-na no coração dos outros
e adoram voar baixinho

Sublimes no sofrimento
voadores de sonhos perfilados
guardam metade do coração
para dias de chuva intensa
com as asas inundadas de solidão
sufocam ao ouvir falar de amor

A meia altura
não se guardam segredos
e os sorrisos
coalescem-se nas asas das únicas gaivotas
que convalescem no ninho

Se as asas
deixassem voar mais alto
então metade da vida
seria a meio caminho

...a outra metade
continuaria ainda perdida
nas meias asas
de uma gaivota à deriva

06/06/05

A morte vestiu de gala

A gala e a morte
vestem a mesma cor
nos olhos dos outros
reflecte-se o gosto de quem perde
o que nunca teve
uma sorte
na roleta da presunção
no ar, palpita um odor
de uma vida perdida
com a classe
de um vestido preto
- Assim estás sensual!
dama de companhia
na mais tenra hipocrisia
ao baile a que todos vão