22/06/05

Uma estrela que dança - parte II

Image hosted by Photobucket.com

2.45 de uma nostálgica madrugada de Lisboa. Homens refugiados numa mescla de sonhos e frustrações sentavam-se ordenadamente na sala VIP do clube nocturno “ Los Gatos Negros”. O silêncio demonstrava a cumplicidade masculina de quem sente um prazer enorme em estar ali, mas dificilmente conseguiria explicar credivelmente o atraso para jantar. Faltavam poucos minutos para as três da manhã, quando as luzes deixaram de incomodar os olhos de quem apesar de tudo tinha vergonha, mesmo sabendo que a consciência valia o preço da entrada – 200 euros.
Os persas topavam-se à distância; cruzavam as pernas incessantemente e bebericavam o whisky com espaços de segundos enquanto olhavam de soslaio para os outros companheiros, procurando sensações e fragilidades que os acalmassem. No clube “Los Gatos Negros” os persas eram todos os principiantes, que apesar de tudo actuavam com o nervosismo próprio de quem quer demonstrar que é experiente.
Escuridão absoluta. Apenas uma risca prateada atravessava o palco desde o chão até ao céu, chamando para si o charme e o mistério de um objecto puramente feminino – o varão.
Eis que um vulto no horizonte fez levantar o primeiro burburinho na sala, seguido de um esfregar de mãos frenético; agora todos os homens eram iguais, sem rosto e escondidos por detrás de uma esperança de conquista. Todos eles estavam ali, não só para ver e apreciar, mas no íntimo todos tinham uma esperança de amor à primeira vista, que os fizesse lá voltar.
Acenderam-se as primeiras luzes e lá estava ela, percorrendo todo o palco como se um desfile se tratasse, um caminhar experiente de quem nasceu para vender emoções.
Aaaaaaah – exultaram os presentes numa coreografia não planeada.
Era o primeiro aplauso verbal para LurdeZ, uma mexicana de contornos idílicos, pele morena, cabelos negros e uns olhos onde o reflexo do verde hipnotizava quando se fixavam na alma de um qualquer peregrino. LurdeZ era a única mulher nos “ Gatos Negros” que não vestia nenhuma personalidade, nem usava qualquer música – ela era simplesmente a sua própria imagem. Um dia alguém vestirá a pele de LurdeZ como um ícone que calcorreou a paixão e os sonhos dos outros.
No fim – e porque tudo tem um fim – as expressões da derrota de mais um amor perdido. Nunca ninguém conquistou esta mulher, muito menos em apenas quinze minutos.
No amor, LurdeZ jamais perdera uma emoção, jamais deixara escapar uma réstia sequer de amor-próprio.
Depois do show, como sempre, deu um respeitoso beijo no Birmanês e deixou-os com a frigidez de quem acaba de roubar um cego.
Perto do metro quando ainda decifrava o caminho da glória tropeçou numas pernas estendidas, assassinadas pelo próprio corpo a que pertenciam. Depois de pisadas, as pernas esboçaram uma expressão de dor, ao mesmo tempo que o resto do corpo angariava sorrisos, nesta noite já quase manhã.
- Desculpe señor – disse LurdeZ num português mais do que infantil.
- No pasa nada – retorquiram as pernas ainda mortas.
- Espanhol señor?
- Não, apenas um português que não consegue ir para casa, porque o metro tem aquelas luzes fundidas – sim aquelas em que se pode parir uma estrela que dança.
Álvaro acabara de parir uma estrela que dança, mesmo sem um aparente caos interior.
A sua frase mais religiosa era agora a sua maior mentira.

1 comentários:

Miss Kafka disse...

Gostava de agradecer a tua visita e palavras deixadas no "Kafkiano". Volta sempre, até agora gostei de aqui estar, voltarei com toda a certeza.